terça-feira, junho 19, 2007

COLÔNIA SANTA ISABEL, O HOMEM E A LEPRA

Inaugurada em 23 de abril de 1931, a Colônia Santa Isabel, instalada no município de Betim, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, local onde se enclausuravam pessoas com a doença de lepra e atualmente chamada de hanseníase, vive hoje dias de glória, uma vez que a assustadora doença está praticamente controlada no Brasil.

As pessoas que descobriam serem portadoras da enfermidade eram abandonadas pelas famílias e, como inválidas, eram levadas para a colônia, onde ficavam à mercê da sorte, sem a menor chance de sobrevida, visto que, na época, a medicina não possuía conhecimentos profundos da doença, o que impedia que os doentes se curassem. Naquele tempo os hansenianos eram obrigados a se isolarem na pequena comunidade que era cercada com correntes para impedir o acesso de transeuntes que não fossem portadores da doença.

Lázaro Inácio, de 69 anos, sabe bem explicar a agonia de se ver trancafiado em um local onde todos eram excluídos, vítimas do enorme preconceito. Segundo ele, era comum encontrar pessoas mortas por suicídio. Após se desesperarem e sem ter esperança de cura, se matavam, a maioria por enforcamento. Havia também cerca de seis a oito mortes naturais por dia, decorrentes da pavorosa e incurável doença.

Morador da colônia desde 1945, quando ali chegou com oito anos, Lázaro diz que sofreu muito. Nascido em Carmópolis de Minas, foi expulso do seio familiar tão logo se descobriu que estava infectado. Lázaro conta que foi difícil ouvir comentários como: “pode esquecer dele porque ele foi para lá para morrer”. Hoje ele diz que os que esperavam a sua morte já se foram e ele, apesar de sem família, continua vivo e feliz, afinal, conseguiu se livrar da doença e há sete anos não faz uso de medicamentos.

Ele comandou na comunidade um time de futebol e trabalhou no hospital local, onde morou a até pouco tempo. Depois de tantos anos, logo depois de nos conceder a entrevista, Lázaro se mudou da Colônia e não conseguimos saber para onde ele foi.

Outro interno do hospital é João Pereira dos Santos que veio de Porto Seguro (BA) há 36 anos, na época com 12. Aos sete anos, sua família descobriu que ele era portador da hanseníase e fez tudo para tentar curá-lo. Chegou a ponto de sua mãe vender tudo que tinham, mas foi em vão! Como a doença avançava a cada dia, João foi enviado para Santa Izabel onde passou a maior parte da vida. Hoje, com 48 anos, o baiano, que se expressa muito bem, passa o tempo no convívio com amigos, que na realidade são sua família, aproveitando o aconchego da nova casa.

Todos eles já estão curados e alguns têm apenas seqüelas, mas como não têm para onde ir, continuam ali. Quando chega uma visita, mesmo desconhecida, todos os moradores se alegram e dão um jeito de se aproximar para um bate-papo.

Já o enfermeiro Acrísio Bernardino do Nascimento, de 60 anos, conta que nasceu nas proximidades da colônia e sempre esteve em contato com a população dali, mesmo não sendo doente. “Só podia entrar na colônia quem tivesse mais de 18 anos. Eu, mesmo menor de idade, cansei de entrar escondido para participar de alguma festa ou simplesmente para visitar as pessoas”, diz ele. Trabalhando no hospital há 29 anos, Acrísio se diz realizado, pois nunca sentiu preconceito quanto aos hansenianos e tem ali um grande número de amigos. Ele conta que há muitos anos, era comum o hospital receber pacientes encaixotados, devido à gravidade da doença e à falta de informação, o que afastava as pessoas dos doentes.

Segundo a enfermeira Maria Aparecida Alves, o antigo pavilhão da colônia acaba de passar por uma reforma radical. “O pavilhão agora é outra coisa. É muito chique”, diz ela orgulhosa. Foram construídas casas-lares para abrigar os que ali viveram anos sem privacidade, afinal, eles moravam todos juntos, espalhados pelas grandes alas do pavilhão. São casas confortáveis e independentes. Maria Aparecida conta que trabalha no local há 25 anos e que, nesse tempo todo, nunca presenciou um médico dar um laudo constando a hanseníase como a “causa-morte”. Isso é fruto do avanço da medicina que continua lutando em prol da erradicação da doença no Brasil.

Apesar de todo o esforço do Ministério da Saúde, o Brasil ainda é o segundo país em casos de hanseníase, ficando atrás apenas da Índia.

O Hospital Santa Isabel, na colônia, que antes era específico para hansenianos, funciona hoje como pronto-atendimento generalizado e recebe pacientes de toda a região de Betim que ali comparecem em busca de uma consulta emergencial.

Há seis anos, o conjunto arquitetônico da Colônia Santa Isabel foi tombado como patrimônio histórico e cultural de Betim.

13 comentários:

Anônimo disse...

Mto bom a informação a respeito da Colônia Santa Izabel, essa de grande ensinamento a todos...
São moradores que merecem todo nosso amor e respeito..
Já visitei a Colônia e reconheci q lá é um lugar de mto afeto, onde os pacientes nos recebem c tal alegriar q nos emocionam...
Parabéns a todos q trabalham nessa comunidade....

Veritas disse...

ola!! adorei o seu blog....minha mãe esteve internada nessa colonia, tenho orgulho dos pais que tive, ambos tiveram Hanseniase, mas eu e minha irma nunca tivemos a doença, moro ao lado de uma antiga colonia de Guarulhos - São Paulo chamada Padre Bento, nasci lá por preconceito, mas meu maior orgulho e sempre poder abraçar um portador de hanseniase...pois a pior doença e o preconceito...precisava entrar em contato com alguem que morou la nos anos 50, pois minh amae esteve internada nesse periodo; se puder me ajudar...grande abraço amigo

Leonardo Savassi disse...

Sou médico da Colonia Santa Izabel e termino o mestrado sobre a Qualidade de Vida do cuidador destes pacientes. Gostaria de ter acesso a suas fontes. Pode me responder através do Blog medicinadefamiliabr (http://medicinadefamiliabr.blogspot.com/)?

Att
Leonardo Savassi

Valdir Carleto disse...

Caro Ruither

Sou jornalista em Guarulhos e a bisavó de minha esposa esteve internada na clínica Sta. Isabel no fim dos anos 1930. Nunca mais se teve notícias dela. Você sabe indicar alguém da atual administração a quem eu possa enviar pedido de informações sobre a pessoa. O nome dela era Gercina Pereira dos Santos ou Gercina dos Santos Pires.

Desde já, agradeço sua atenção.

Leonardo Savassi disse...

Prezado Valdir Carleto,

Há na Colônia um extenso arquivo de pacientes que foram internados. Basta procurar o Serviço de Prontuários local e solicitar. Você pode procurar contatos na página www.fhemig.mg.gov.br.

Leonardo Savasssi
Médico de Família e Comunidade
Casa de Saúde Santa Izabel

bia santos disse...

Quem fala que não existe prisão perpétua no Brasil, não sabe de nada.

As pessoas que foram perseguidas e segregadas, foram trancafiadas e depois que veio a cura, simplesmente não tinham para onde ir.

Parabéns pelo blog!!

Nilane disse...

Bom dia, venho parabenizar pela matéria, algumas semanas atrás estive visitando a Colônia e foi justamente na semana da luta contra o preconceito em relação a Hanseníase. Foi muito proveitoso, pois tive a oportunidade de conhecer de perto a realidade que hoje vive os moradores de lá e saber mais a respeito da história que se passou sobre a formação da Colônia Santa Isabel. É triste saber que foram vítimas de um violento preconceito que gerou uma exclusão social. Ainda bem que as coisas mudaram (pra melhor).

Termino com uma frase que foi muito bem propagada, "Hanseníase tem cura, Preconceito também."
Abraços,
Nilane

Jornalista Ruither Ferrão disse...

Olá Nilane,

Muito obrigado pela visita ao meu blog e pelo comentário deixado no mesmo.
Que bom que você teve a oportunidade de conhecer a Colônia Santa Isabel!
Um abraço.

Anônimo disse...

Olá...
Tem uma pessoa que passa em minha casa sempre pedindo doações para Colonia Santa Isabel dos Leprosos.
Como posso confirmar que se trata realmente de um colaborador de vocês?
Única coisa que ele apresenta é um papel do tamanho A4, com o nome dele, da mãe dele e o nome da colonia. Me parece, as vezes que ele passa com menos de um mês de intervalo. Desculpe, mas nos dias de hoje, temos que nos precaver... achamos ele um pouco suspeito!
Obrigada, aguardo retorno!

Cassia Keylla disse...

Parabéns pela história anunciada da Colônia Santa Isabel... Estudo Tec. Enf e minha professora passou na sala de aula alguns vídeos falando sobre a hanseníase e um deles falava sobre a trajetória da pequena comunidade de Betim com o preconceito da Hanseníase, então resolvi pesquisar um pouco mais e estou muito entusiasmada para conhecer o lugar e os que sobreviveram... Me apaixonei pela magnífica história deles... Parabéns mais uma vezes!!!

DONIZETE CUSTÓDIO RODRIGUES disse...

"prezado jornalista em curso,voce e
a matéria saõ de suma excelência neste país de injustiças de perdas.
tenho um enorme prazer de conhece-lo
e dar continuidade desta mesma maté
ria,onde os filhos foram também injustiçados,sofremos torturas e abusos em ofarnatos e lugares compulsórios.eu sou um deles que tenho muito para falar e noticiar.minha mãe morou na colônia em 1963 e eu nascí em 1964.gostaria muito encontra-lo e dar continuidade desta matéria,até porque o governo reconheceu esta injustiça cometida com os pais,mas naõ reconheceu a mesma cometida com os filhos.no mais fico á sua disposiçaõ de matéria.contatos 31)33336088/71149584/85987526/ email rodriguesdonizete2013@gmail.com

psiquê pra quê? disse...

Olá Gostatia de Saber informações sobre o Ulisses Ferreira Palhares
Grato
renariques@gmail.com

Shirley Dias disse...

[AJUDA]

Pessoal, boa noite!

Peço encarecidamente quem puder doar fraldas geriátricas, entre em contato comigo no tel 31 996549465.
Estamos precisando de doações para uma pessoa com demência de corpos de lewy. Essa doença é rara e infelizmente não tem cura!

Aos que puderem ajudar, agradeço de coração. E aos que não puderem também agradeço pela atenção e que Deus abençoe vocês!